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2 de enero de 2018

A luta pela IV Internacional em marcha

Convocação para uma conferência internacional em Buenos Aires.

A comemoração do centenário da Revolução de Outubro, que teve lugar nos mais diversos palcos através do mundo, tem servido, além disso, como uma oportunidade para delimitar posições a respeito do período histórico que atravessa a humanidade na atualidade, e portanto sobre a luta de classes e as lutas políticas.

A Revolução de Outubro constituiu o ponto de partida de uma nova estratégia política do socialismo, focada até então em uma perspectiva de reformas sociais, porque testou em uma escala geográfica sem precedentes que a luta de classes moderna conduz ao governo dos trabalhadores – o qual significa a possibilidade de que o proletariado desenvolva, por meio de sua dominação de classe, o salto ou a transição para uma sociedade socialista internacional. Esta estratégia política, definidamente revolucionária, no entanto foi preponderante em um período histórico muito efêmero em suas definições fundamentais. O retrocesso da Revolução e da classe operária, como consequência de um bloqueio econômico, invasões militares e isolamento relativo, abriu caminho à tese do “socialismo” restringido a “um só país”. Recorreu à política de colaboração de classes, conhecida, por um lado, como “frente popular” e, por outro lado, como “coexistência pacífica” com o capital e seus estados – precisamente as duas questões que o bolchevismo derrotou politicamente para impor a vitória de Outubro.

Antes que o assessor dos Estados Unidos, Francis Fukuyama, cunhasse a tese de que o domínio do capital e do mercado capitalista constituía “o fim da história” e até sua própria finalidade ou objetivo, nas filas do stalinismo e da esquerda, essa perspectiva já tinha atingido um desenvolvimento "teórico", sem podermos chamá-lo assim, significativo. A bancarrota capitalista em escala desconhecida, as guerras imperialistas e as crises políticas, bem como as rebeliões que sacodem ao mundo, se não têm posto “fim” a estas manipulações ideológicas, por certo que as têm refutado por completo. O “estado de bem-estar” jaz já no panteão das relíquias e até os estudiosos da mudança climática advertem que o capitalismo prepara uma crise existencial ao ser humano. A caracterização de que “a crise da humanidade se reduz à crise de direção do proletariado”, definida assim pela IV Internacional, é mais que nunca a questão estratégica fundamental.

Leningrado

Em Istambul, a convulsionada capital da convulsionada Turquia, foi palco, a princípios de dezembro, de uma de suas comemorações, por iniciativa do DIP – o Partido Operário Revolucionário. O encontro foi aproveitado também para reunir às principais organizações da CRQI, que luta para refundar a IV Internacional, com o objetivo de lançar uma série de iniciativas.

No início da Jornada em Istambul, várias das organizações presentes que tinham participado de seminários realizados em Leningrado (rebatizada São Petersburgo pela burocracia restauracionista), o centro político da Revolução de Outubro, transmitiram manifestações de mudanças, em especial entre a juventude russa, como a revalorização da experiência revolucionária de Outubro. Este princípio de giro político é um resultado, claro, do retrocesso histórico que sofreu o ex-espaço soviético como consequência da restauração das máfias capitalistas. À pobreza enorme, à perda de conquistas, soma-se a evidência de que o regime existente caminha por uma margem tênue de uma nova catástrofe econômica e política. A camarilha de Putin tenta estrangular esta perspectiva mediante o reforço do bonapartismo dos ‘serviços’ do Estado. No entanto, enquanto o velho partido comunista stalinista converteu-se em um capacho de Putin, ao mesmo tempo estão se produzindo rupturas de esquerda de certa amplitude, incluindo uma defesa da fundação e vigência da III Internacional fundada por Lenin e Trótsky, em 1919. Com estes informes iniciou-se a Jornada.

Taksin

O seminário organizado pelo DIP durou toda a jornada e esteve bem organizado. Teve lugar em um teatro estilo século XIX, que dá à rua que conduz à histórica praça Taksin. A Revolução de Outubro não foi relegada ao passado histórico, mas situada em sua atualidade. Ficou de manifesto que o impasse da sociedade capitalista se distingue, no presente, por sua escala, por sua profundidade, e por sua tendência, inclusive, a converter aos principais países imperialistas, em especial na Europa, no famoso “elo débil” da crise econômica e política mundial. No que diz respeito à minha intervenção no painel inicial, dei ênfase em assinalar que a vitória da Revolução de Outubro foi o resultado da vitória da luta política por superar a crise de direção que afetou ao proletariado revolucionário russo naquela luta histórica – tanto contra os partidos de colaboração de classes, como no interior do partido bolchevique. A crise de direção segue sendo o problema estratégico por excelência e está relacionado com o entendimento da decadência histórica irreversível e a tendência à desintegração do capitalismo.

A jornada destacou-se pela originalidade das intervenções de militantes muito jovens de diversos países, ou seja que expuseram suas realidades históricas, suas particularidades no contexto da crise mundial. Foi uma aula instrutiva escutar as experiências de jovens azerbaidjanos, e de militantes ucranianos e de vários países dos Balcãs. O “choque de civilizações” com que o imperialismo procura justificar sua cruzada de colonização criminosa, foi refutado pelo relato das grandes revoluções na Ásia Central muçulmana e nas gigantescas rebeliões que seguiram à primeira guerra mundial. O véu do islamismo não foi obstáculo para que milhões de muçulmanos se incorporassem à torrente revolucionária impulsionada por Outubro. A própria Turquia deve seu movimento republicano à influência da Revolução de Outubro. O imperialismo contrapôs ao Chamado aos Povos Muçulmanos (1), por parte do bolchevismo, a Declaração Balfour (2), ditada pelo imperialismo britânico, para combater essa convocação da mão do sionismo. A crise do imperialismo tem convertido, na atualidade, a toda a área coberta há cem anos pelo império Otomano, em um barril de pólvora social e político. A Jornada foi uma descrição da crise mundial no Ásia Central e no Oriente Médio, e da resistência, o combate e a revolução que mora em suas massas exploradas.

IV Internacional

Depois desta introdução a respeito da atualidade da revolução mundial, aconteceu, nos dias seguintes, a reunião das organizações presentes da CRQI, no Seminário. O ponto fundamental foi a necessidade de um balanço do programa, do método e da atividade da CRQI, para atualizar as conclusões, as táticas, os métodos de organização e as iniciativas internacionais. A CRQI é a única tendência política que reivindica a IV Internacional, que tem um programa, em contraste com as declarações conjunturais e impressionistas que caracteriza o resto. É o que nos propomos reexaminar ao cabo de duas décadas de desenvolvimento da crise mundial que esse programa soube antecipar. Para isso foi decidido convocar uma conferência preparatória internacional, no próximo abril, com vistas a um Congresso no setembro seguinte. Para desenvolver esta tarefa e as ações políticas que impõe a luta de classes internacional, foi combinado em estabelecer uma rede digital comum, editar uma revista bilingue trimestral, grupos de trabalhos comuns em torno de cada continente e um comitê político permanente. A pré-conferência internacional terá um caráter aberto, à que assistirão numerosas organizações convidadas da região do Euro-Mediterrâneo e da América Latina.

Anteriormente a esta reunião, organizou-se uma sessão de discussão com militantes turcos e de outros países participantes do Seminário, em relação ao Partido Obrero e à Frente de Esquerda, na Argentina, cuja experiência é seguida com interesse e criticamente. O debate girou, em definitivo, sobre o que essa experiência ensina a respeito do método para superar a crise de direção e construir partidos revolucionários com forte penetração nas massas. Em oposição a um esquematismo fortemente arraigado, sublinhamos a importância que tem a transformação da consciência do próprio proletariado, porque a vanguarda revolucionária não pode se desenvolver à margem dela, nem pode fazê-la sem jogar um papel central nessa transformação. Criticamos a ideia de que a esquerda revolucionária possa ser a beneficiária automática da crise do estado e dos partidos patronais, pois, no melhor dos casos, isso concluiria em uma construção democratizante, não revolucionária. Sublinhamos a necessidade de caracterizar muito bem a oportunidade política dos frentismos de esquerda e sua relação com o ativismo operário e a vanguarda; a necessidade, nestas experiências, de lutar para estender a unidade de ação no campo dos sindicatos, da mulher e da juventude; e por sobretudo, a obrigação, não já a necessidade, de um reforço da elaboração teórica e da delimitação política, precisamente para construir o partido que fez possível a vitória de Outubro.

LEER VERSIÓN EN ESPAÑOL: "LA LUCHA POR LA IV INTERNACIONAL EN MARCHA"

 

(1) Na circular dos Comissários do Povo "A Todos os Muçulmanos Trabalhadores de Rússia e do Leste", emitida poucos dias após a tomada do poder, o governo soviético declarou a rejeição das políticas imperialistas seguidas pelos governos czaristas e provisórios e expressou o desejo de construir relações com os povos coloniais sobre a base da igualdade e o respeito mútuo. Este documento teve grande impacto na população muçulmana do território do antigo Império russo e nos países islâmicos.

(2) Carta enviada pelo Secretário de Estado de Relações exteriores britânico, Arthur James Balfour, a Lord Rothschild, destinada a conseguir o apoio da comunidade judia ao esforço bélico na Primeira Guerra Mundial. Conhecida como a “Declaração de Balfour”, se converteu em uma das bases legais para criar um estado judeu na Palestina. A carta foi publicada no “Times” de Londres uma semana mais tarde. O texto é o seguinte:

Foreign Office, 2 de novembro de 1917
Estimado Lord Rothschild:
Tenho sumo prazer em comunicar-lhe em nome do Governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia com as aspirações judaicos sionistas, declaração que tem sido submetida à consideração do gabinete e aprovada pelo mesmo:
«O Governo de Sua Majestade contempla com simpatia o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e empregará seus melhores esforços para facilitar o cumprimento deste objetivo, ficando claramente entendido que não se fará nada que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não-judaicas existentes na Palestina, ou os direitos e status político de que gozam os judeus em qualquer outro país.»
Lhe agradecerei que leve esta declaração a conhecimento da Federação Sionista.
Seu
Arthur James Balfour

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