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22/10/2026
Brasil: derrotemos Bolsonaro e Trump nas ruas e nas urnas
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O triunfo de Flávio Bolsonaro sobre Lula da Silva por uma diferença de 1,78% no primeiro turno da eleição presidencial brasileira abre um segundo turno entre ambos os candidatos no próximo dia 25 de outubro. A possibilidade de uma vitória bolsonarista, com o apoio direto de Trump, Marco Rubio, Milei e da direita internacional, provocou grande preocupação entre os trabalhadores, os estudantes e a esquerda do Brasil e da América Latina.
1. As eleições brasileiras fazem parte da ofensiva fascistoide e belicista internacional. Trump e Marco Rubio relançaram uma doutrina Monroe reforçada: a invasão da Venezuela, o sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa e a imposição de um governo que administra um protetorado norte-americano; a fraude eleitoral que levou Keiko Fujimori à presidência peruana, por meio da contagem do voto no exterior nas embaixadas; o apoio, inclusive com armas e munições, a Rodrigo Paz contra o levante indígena, camponês e operário na Bolívia; e o respaldo a Kast no Chile e a De la Espriella na Colômbia. O pacto do Escudo das Américas habilita a intervenção militar e policial sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”, enquanto Washington procura instalar bases na Patagônia argentina, no Equador e em outros países.
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Essa ofensiva busca alinhar o continente atrás do imperialismo norte-americano em sua confrontação com a China e com as potências rivais, em meio ao aprofundamento da crise capitalista mundial. O controle dos minerais estratégicos e dos recursos da região integra essa preparação belicista. Tem um antecedente na política desdobrada por Washington em torno da Declaração de Havana de 1940, quando se preparava para intervir na Segunda Guerra Mundial. A conquista do governo brasileiro pelo bolsonarismo reforçaria esse bloco direitista e a pressão por uma mudança de regime em Cuba, inclusive a ameaça de uma intervenção militar.
2. Trump vem intervindo abertamente para tirar Lula do poder e favorecer Flávio Bolsonaro, que anunciou que, se chegar ao governo, aderirá ao Escudo das Américas. As pressões diplomáticas, as tarifas discriminatórias, a ingerência contra as condenações de Jair Bolsonaro e dos golpistas de janeiro de 2023, as ameaças de intervenção contra o narcotráfico e o fechamento da embaixada e dos consulados norte-americanos às vésperas da eleição constituem instrumentos dessa política. Junto com o de Trump, Bolsonaro recebeu também o apoio do genocida sionista Netanyahu. Milei tem atuado como promotor dessa orientação na região. Também não se pode descartar que uma derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro dê lugar a novas tentativas de não reconhecimento do resultado e de desestabilização, como ocorreu após a derrota de seu pai.
Uma vitória bolsonarista reforçaria o ataque contra as conquistas operárias e as liberdades democráticas, apoiado nas posições da direita no Congresso e nos governos estaduais. A chacina policial de outubro de 2025 nas favelas do Rio, que deixou 122 mortos, antecipa o alcance dessa orientação repressiva. A eleição de um inspetor de polícia aliado ao bolsonarismo à frente desse governo estadual reforça esse perigo. À ofensiva contra as condições de vida somar-se-ia um novo impulso à ingerência imperialista na América Latina (Folha de S.Paulo, 12/10).
3. A ameaça de um triunfo de Bolsonaro impulsionou grandes manifestações, com participação destacada do movimento estudantil e da juventude. Em 11 de outubro, uma multidão ocupou a avenida Paulista, em São Paulo; a campanha de Lula estimou o comparecimento em um milhão de pessoas. No dia seguinte, houve mobilizações em Copacabana e um festival na Lapa, no Rio de Janeiro, além de ações em outras cidades.
Essas mobilizações têm como centro a disputa eleitoral e o voto em Lula para impedir o triunfo de Bolsonaro. Embora expressem uma disposição de ocupar as ruas e incluam iniciativas surgidas dos próprios participantes, continuam condicionadas política e organizativamente pelo aparato do lulismo, que procura canalizá-las para a campanha e sujeitá-las a seus acordos com a burguesia. Sua massividade não permite afirmar que tenham superado essa direção nem que constituam já uma intervenção independente da classe operária. A possibilidade de avançar nesse sentido depende de uma luta política dentro do movimento, por uma organização e um programa próprios dos trabalhadores.
A incorporação da reivindicação contra o regime de trabalho de seis dias de trabalho para um de descanso mostra, contudo, que a mobilização pode abrir um terreno para as reivindicações operárias. A substituição dessa jornada de 44 horas por outra de 40 horas, distribuídas em cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução salarial, alcança cerca de 15 milhões de trabalhadores. Bolsonaro e o Partido Liberal pretendiam adiar a votação até a posse do novo Congresso, em janeiro de 2027, e substituir a redução da jornada por horários “livres” pactuados entre patrões e trabalhadores. A pressão popular e o custo eleitoral dessa posição os obrigaram a votar favoravelmente. Flávio Bolsonaro também recuou de sua decisão de não participar dos debates televisivos que começam em 18 de outubro.
Esse recuo não modifica os compromissos patronais do bolsonarismo nem garante a aplicação efetiva da conquista. É necessário defendê-la diante das tentativas de esvaziá-la mediante a flexibilização e o pagamento por hora, e convertê-la em ponto de apoio para recuperar os direitos arrebatados pelas reformas anteriores.
4. Neste quadro, o Partido Obrero (Argentina) convoca a aprofundar as mobilizações e a votar criticamente em Lula no segundo turno de 25 de outubro, para contribuir com a derrota eleitoral do bolsonarismo. Acompanhamos os trabalhadores e jovens que recorrem a esse voto para fechar o caminho à direita e buscamos desenvolver sua disposição de luta. Essa decisão não concede apoio político a Lula, à sua chapa com Geraldo Alckmin nem à sua coalizão com partidos patronais; também não compromete um apoio a um próximo governo. Mantemos nossa oposição à frente popular e à sua política de colaboração de classes.
O governo do PT contribuiu para a recomposição do bolsonarismo ao frustrar as expectativas de recuperação das conquistas perdidas. Manteve a reforma trabalhista de Temer e a previdenciária de Bolsonaro, preservou os compromissos com os credores da dívida pública e subordinou as necessidades populares à “estabilidade econômica” exigida pelo grande capital. A burocracia da CUT e das demais centrais conteve as lutas para sustentar o governo. Essa política desmoralizou e desmobilizou setores dos explorados e deixou o descontentamento dos trabalhadores precarizados, endividados e sufocados pelo custo de vida exposto à demagogia direitista.
No primeiro turno, em 4 de outubro, convocamos a não votar nem no bolsonarismo nem na frente de Lula e Alckmin, este último representante da burguesia liberal. Promovemos o voto no PSTU, apesar de nossas profundas diferenças políticas, como um passo rumo ao reagrupamento de uma vanguarda operária e de esquerda independente das alternativas burguesas. Esse objetivo conserva toda a sua vigência. No segundo turno, em que não existe uma candidatura de independência de classe, o voto crítico em Lula constitui uma decisão para este confronto eleitoral. A luta por uma organização política independente dos trabalhadores deve continuar dentro desta intervenção.
Convocamos a impulsionar assembleias em fábricas, locais de trabalho e sindicatos para decidir a participação coletiva nas mobilizações e votar pautas de reivindicações. Exigimos da CUT e das demais centrais a convocação de um Congresso Nacional dos Trabalhadores que defina um programa e um plano de luta, diante da ofensiva dos governadores e das maiorias parlamentares e da política lulista de negociar à custa das demandas populares. Impulsionamos comitês de ação e coordenações com o movimento estudantil e as organizações populares, com delegados eleitos e mandatos de assembleia, e propomos a frente única a todas as organizações operárias.
O programa deve incorporar as reivindicações que Lula deixou insatisfeitas: recuperação de salários e aposentadorias, aumento emergencial diante do custo de vida, fim da precarização e das demissões, revogação das reformas trabalhista e previdenciária e defesa da educação e da saúde públicas. Sua realização exige enfrentar o ajuste fiscal e o pagamento da dívida à custa das necessidades sociais. Nenhuma reivindicação deve ser adiada para oferecer garantias ao empresariado durante a campanha ou facilitar os acordos de um futuro governo.
A continuidade da organização depois do segundo turno será decisiva, qualquer que seja o resultado. Se Lula vencer, os trabalhadores terão de enfrentar os ajustes e as concessões de seu governo à direita e ao trumpismo; se Bolsonaro vencer, terão de organizar a resistência à sua ofensiva. A força reunida durante a campanha eleitoral só poderá sustentar essa luta se conquistar sua independência política e de organização em relação ao governo e aos partidos patronais.
O Partido Obrero (Argentina) convoca a esquerda que defende a independência de classe a intervir com esta orientação e a reforçar a solidariedade dos trabalhadores argentinos com seus irmãos brasileiros. Uma derrota de Bolsonaro golpearia Trump e Milei. Daria novo fôlego à resistência a Milei na Argentina e à luta contra a direita em toda a América Latina. A tarefa da esquerda é contribuir para essa derrota e disputar com o lulismo a direção dos trabalhadores mobilizados, para que possam enfrentar o governo que surja das urnas e abrir uma saída política própria da classe operária.
Traducción: Tribuna Classista


