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30/10/2026
Brasil: Bolsonaro é Corina Machado

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A mobilização em massa — iniciada por estudantes no dia seguinte ao primeiro turno das eleições, em que, surpreendentemente para as pesquisas, Lula perdeu e Bolsonaro venceu por 1,87% — varreu o Brasil e abalou as estruturas sociais e políticas. As marchas e manifestações atraíram centenas de milhares de pessoas. O comício de encerramento da campanha, na Avenida Paulista, em São Paulo, reuniu cerca de 1,5 milhão de pessoas, que gritavam “Bolsonaro, nunca mais”.
Bolsonaro foi derrotado primeiro nas ruas e depois, no domingo, dia 25, nas urnas (51,79% contra 48,21%, uma diferença de 3,58%).
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As marchas massivas forçaram Bolsonaro, a direita e a classe capitalista a submeterem a votação no Senado, apenas 10 dias antes das eleições, à revogação da exploradora jornada de trabalho 6x1, estabelecendo um novo regime trabalhista que implica uma redução de quatro horas semanais sem redução salarial. Associações empresariais haviam declarado sua oposição, e os apoiadores de Bolsonaro tentaram adiar a votação para depois da campanha eleitoral, quando o novo parlamento, mais dominado pela direita, assumiria o poder. No entanto, todos os senadores (com exceção de Hamilton Mourão, ex-vice-presidente do governo do pai de Bolsonaro e um ferrenho apoiador do presidente) foram obrigados a votar a favor. Flávio Bolsonaro justificou em conversas privadas com líderes empresariais a aprovação da lei, prometendo que, caso fosse eleito, a modificaria para beneficiar os empregadores.
Por que ele votou a favor? Devido ao impressionante aumento da mobilização popular.
Colapso político da direita
A derrota eleitoral de Bolsonaro no segundo turno foi uma "surpresa" (a maioria das pesquisas pré-eleitorais previa sua vitória) para Trump, Milei e a direita internacional, que esperavam que seu eventual triunfo completasse uma "guinada à direita" em todo o continente latino-americano. Eles também esperavam incorporar o Brasil ao "Escudo das Américas", o pacto que Donald Trump e seu Secretário de Estado, Marco Rubio, fizeram com governos de direita em todo o continente para "legalizar" a intervenção, inclusive militar, em países latino-americanos que não se alinhassem incondicionalmente às políticas belicistas dos EUA.
Milei tem sido uma das figuras mais odiadas pelas massas brasileiras. O vídeo enviado pelos trabalhadores da FATE, fábrica ocupada há oito meses em protesto contra um lockout da gerência, foi exibido em diversos comícios e recebido com aplausos entusiasmados. A "motosserra" foi amplamente condenada.
No final do domingo, dia 25, um Flávio Bolsonaro transtornado pelo impacto eleitoral contrário a ele declarou, no ato de encerramento realizado em seu “bunker” de campanha, que não iria reconhecer a vitória de Lula. Reivindicou a anulação da eleição e a convocação de um novo processo eleitoral. Vale destacar que Trump, sempre impulsivo, levou várias horas para fazer uma declaração na qual afirmou ser “neutro” e disse que apreciava Lula, embora considerasse que a eleição havia apresentado falhas “manipuladas”. O “falastrão” Milei, também sempre exaltado e direitista, preferiu permanecer em silêncio, guardando para si as comemorações que havia imaginado diante de uma eventual vitória de Bolsonaro. Durante sua viagem ao Brasil para apoiar Bolsonaro e insultar Lula de maneira macartista, havia declarado que, onde quer que ele concedesse seu aval de apoio, a direita “decente” venceria.
Mas a “resistência” anunciada, em tom de lamento, por Flávio não seria apoiada por seus aliados da direita. O crescimento das mobilizações de massa e sua radicalização impediam a repetição de alguma aventura golpista como aquela realizada — e fracassada — em janeiro de 2023, com a invasão do Palácio do Planalto, em Brasília. Uma nova tentativa poderia chegar a desencadear uma guerra civil, para a qual a direita não está organizada diante de um povo mobilizado.
Tarcísio de Freitas, o governador direitista reeleito de São Paulo, não apoiou as declarações de Bolsonaro e reconheceu a vitória eleitoral da Frente Ampla. O mesmo fizeram todos os candidatos presidenciais de direita que haviam concorrido no primeiro turno, inclusive o presidente do Partido Liberal, pelo qual Flávio concorreu, que também reconheceu a derrota eleitoral. O próprio Flávio, politicamente isolado, recuou parcialmente de suas declarações aventureiras.
A fuga
Flávio Bolsonaro fugiu do Brasil em uma operação organizada por Trump, Milei… e com a colaboração da administração de Lula. Viajou 1.500 quilômetros por estrada com a mulher e os filhos e cruzou a fronteira com a Argentina sem problemas.
A agência Infobae anunciou que a operação estava em andamento na manhã de terça-feira, dia 27, e Flávio e sua família cruzaram a fronteira depois das 22 horas.
Um avião particular, fretado pela embaixada norte-americana, os aguardava. Uma escolta dos serviços de inteligência da Side e da Polícia de Segurança Aeroportuária da Argentina, com a presença de Santiago Caputo, protegeu Flávio até seu embarque e partida para os Estados Unidos, onde recebeu rapidamente um visto de entrada concedido pelo governo norte-americano. Flávio Bolsonaro, de Miami, autoproclamou-se dirigente da oposição brasileira com o objetivo de acabar com o regime de Lula. Antes disso, havia recuado de sua posição inicial de se considerar o “verdadeiro presidente do Brasil”.
Mas… a grande maioria da oposição de direita brasileira tratou de se distanciar dele, afirmando que não aceitaria um líder da oposição no exílio (Flávio) ou na prisão (Jair). Não conheço nenhuma facção que tenha declarado publicamente seu apoio a essa pretensão de liderança do fugitivo. O próprio Trump acabou de jogar mais uma pá de cal, com uma nova declaração: “Demos a ele um salvo-conduto para entrar no país, então veremos, mas não vou me envolver…” (Clarín, 29/10). Teve início uma disputa interna na direita brasileira para definir lideranças e estratégias políticas.
Uma nova Corina Machado
Corina Machado, líder da oposição a Maduro nas revoltas de rua de 2024, instigadas pelo imperialismo, foi levada por Donald Trump para o exílio depois de não conseguir dividir as Forças Armadas e derrubar o regime.
Trump dedicou-se a fomentar a cooptação de setores das corruptas Forças Armadas, do governo e da burguesia nacional bolivariana. Finalmente, conseguiu ampla colaboração para sua invasão e para a detenção, no início do ano, do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, estabelecendo um “protetorado” com um governo fantoche. Corina Machado, que chegou a receber um “Prêmio Nobel” por sua atuação violenta e pró-imperialista, foi despedida por Trump com tapinhas no ombro. Os fracassos não são perdoados — embora sejam guardados para o caso de voltarem a ser úteis no futuro.
Flávio Bolsonaro passou a integrar a mesma categoria de Corina.
Independência política para organizar a luta operária e popular
Desmobilizar as massas e dar respaldo à atuação do governo Lula é o objetivo imediato perseguido por Trump e pela burguesia brasileira, incluindo a direita.
Lula sempre se vangloriou de ser um bom “negociador” com a direita e, historicamente, empenhou-se em conter a mobilização e a radicalização das massas trabalhadoras. Em seu discurso na noite do encerramento da eleição, após sua vitória, afirmou que negociará com a direita, que detém a maioria dos governos estaduais e do Parlamento.
As massas trabalhadoras, que utilizaram a ferramenta eleitoral de Lula — por falta de outras alternativas de classe mais adequadas — para derrotar Bolsonaro e a ofensiva de caráter fascistoide de Trump e de seus subordinados, como Milei, têm diante de si a necessidade de uma revisão estratégica.
As frentes populares de colaboração de classes são um beco sem saída para as aspirações das massas
Qualquer tentativa de golpe deve ser respondida com uma greve geral, mas o que é urgente é tirar todas as conclusões necessárias dessa experiência. Devemos elaborar listas de reivindicações (aumentos salariais e de pensões, fim das reformas trabalhistas e previdenciárias prejudiciais aos trabalhadores, emprego formal para todos os trabalhadores, aumento do financiamento para a educação e a saúde pública, etc.) e, por meio de assembleias e sessões plenárias, implementar planos de ação para impô-las ao governo da Frente Popular.
Traducción: Tribuna Classista
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